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notas biologia pessoal

Um mestrado com bolachas

Compartilho aqui um resumo do que vi nestes últimos dois anos durante meu projeto de mestrado. De um jeito um pouco diferente…

Eu vi o encontro de óvulos e espermatozóides. Vi o início de um organismo. Um não, milhares. Talvez milhões. Vindos de criaturas cobertas de espinhos.

Vi como tudo muda no momento da fecundação. E, sob meu olhar, as células do embrião se dividiram.

Eu vi células se auto-organizando e tomando forma, até virar uma esfera com camada de dentro e de fora. A esfera nadou, num meio tão viscoso quanto mel, usando pequenos cílios que agora adornam suas células.

Eu vi sua forma mudar rapidamente. Tecidos se dobrando, cores aparecendo, células caminhando e fazendo coisas inimagináveis para nosso cérebro humano.

Mudaram tanto que ganharam outro nome. Larvas. Fantásticas e independentes. Um primor do micro-design evoluído. Elegante pra se mover, e, ao mesmo tempo, uma máquina de comer.

Cuidei das larvas. É preciso observar, entender o que precisam. Por meses a fio.

Acompanhei suas mudanças. Novos tecidos aparecendo, e com eles, novas ideias e interesses. Num mesmo ser, vidas que divergem. A larva quer nadar, a jovem quer o fundo. É até difícil imaginar a esquizofrenia da situação.

Mesmo assim, afundar torna-se inevitável. E a metamorfose acontece, drástica e rápida. Ou como costumamos dizer, catastrófica.

As pequenas já não são duas camadas de células, apenas. São elaboradas, com simetria impecável. E com tantos pés… inevitavelmente trôpegas.

Ainda guardo a sensação indescritível de vê-las aprender a andar.

Por Bruno C. Vellutini

Biólogo evolutivo interessado em embriões e larvas de invertebrados marinhos.

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