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Como são as coisas

De um lado tinha a música. Do outro a biologia.

Em 2006 descobri um universo de músicas distribuídas livremente na rede e comecei explorá-lo. O primeiro contato foi pelo Jamendo e depois fui conhecendo os lançamentos das chamadas netlabels. Empolgado com tudo isso, pois achei muita coisa boa, resolvi criar um blog pra compartilhar esses achados, o ccnelas.org. Fui acumulando álbuns interessantes e um dia desses resolvi fazer uma coletânea com algumas músicas que havia divulgado no ccnelas. Pensei um pouco a respeito.

Enquanto isso estava enfurnado em um laboratório no litoral norte de São Paulo fazendo meu mestrado com biologia marinha. Boa parte do meu projeto envolvia criar embriões e larvas de uma espécie de bolacha-do-mar. Nesta época fiquei todo o verão convivendo com estes embriões e larvas.

Alimentando e trocando a água todo dia, olhando no microscópio, tirando fotos, fazendo filmes. Talvez seja por isso que os cientistas sejam meio malucos; muitos vêem coisas que pouca gente no mundo imagina que exista, ou verá algum dia. Conhecer e conviver com estes bichinhos foi certamente intrigante.

Imagine: você é concebido na água do mar, e antes de ter uma dúzia de células, já está sozinho, pois o movimento constante da água se encarrega de diluir sua imensa (milhões) quantidade de irmãos; quando começa a nadar você não tem boca ou ânus, nem sequer nasceu da membrana que protege o óvulo; você usa pequenos cílios para nadar na água, que mais parece melaço, por causa de seu tamanho diminuto; você continua nadando, mas só vai para onde as correntes marítimas te levam, sua força é muito pequena; você continua a se desenvolver e finalmente tem pequenos braços e uma boca; com os braços você captura e se alimenta de microalgas enquanto continua nadando; na medida em que se alimenta começa a se formar, dentro de você, uma pequena estrutura; o que está crescendo é uma bolacha-do-mar; aos poucos a pequena bolacha vai ocupando parte do corpo da larva; em determinado momento a larva começa a nadar perto do fundo, abrindo os braços e expondo a bolacha; a larva e a bolacha, que são uma coisa só, experimentam o fundo, quando gostam um pé da bolacha se estende e gruda firmemente no fundo; a partir deste momento a bolacha nunca mais ira nadar e a larva começa a deixar de existir; em pouco tempo toda larva, suas estruturas, tecidos, são reabsorvidos pela bolacha, que já está dando seus primeiros passos entre os grãos de areia.

Enquanto estudava esta efêmera e diferente história de vida das larvas plúteos, tive uma idéia. Resolvi escolher músicas publicadas no ccnelas que representassem a estranha vida de uma larva plúteos e montar uma coletânea. Foi assim the nasceu “A Viagem do Plúteos” (original em inglês “The Pluteus Trip” lançado em 2007 [usei a estranhez que a vida dos plúteos havia me causado como parâmetro para selecionar músicas disponibilizadas na rede].

Engraçado, enquanto compilava as músicas estava organizando a vinda da exposição “Oceano: vida escondida” para São Paulo, e precisávamos de um texto de divulgação. O release que havia escrito para “A Viagem do Plúteos” caiu como uma luva e serviu de base para o texto “Vida Escondida” publicado na magazine “O Telescópio” da Estação Ciência [usei o release de uma coletânea de músicas para escrever um texto de divulgação].

Certo dia as fotos da exposição foram citadas numa revista digital de música livre. Pouco tempo depois fui contatado para que uma das fotos do Alvaro fosse usada na capa de um mix de músicas ambientes chamado “Underwater is a place to be alone” [usaram uma foto da exposição para ilustrar um álbum de música].

Este álbum era perfeito para servir de música ambiente para a exposição, mas por impasses técnicos não conseguimos colocá-la [usaríamos um álbum , cuja capa era uma foto da exposição como música ambiente da mesma].

Fiz um vídeo com o material do meu mestrado. Nas versões anteriores tinha colocado uma música minha inacabada. No entanto, não havia gostado muito, tanto do efeito da música no vídeo quanto da qualidade do som. Adoraria ter aceitado o desafio de compor uma trilha para o vídeo, mas simplesmente não havia tempo. Precisava então de uma música que tivesse o clima certo. Não pensei muito para recorrer ao “The Pluteus Trip” e não levou mais do que alguns minutos para definir a música tema do vídeo, que é a música de abertura da coletânea, Autonarkose do My First Trumpet no álbum Frerk.

Resolvi experimentar o yEd para mostrar as relações acima num fluxograma. Ficou interessante, especialmente os layouts automáticos (o primeiro posicionei na mão…).

3 respostas em “Como são as coisas”

Em 2002, enquanto cursava o segundo ano de biologia, comecei a ler um livro recomendado pelo chefe do laboratório onde eu fazia estágio. Organizamos um grupo de discussão e ao longo de vários meses nos reunimos semanalmente para discutí-lo com um colaborador da filosofia. O livro chama-se Metchnikoff e as Origens da Imunologia – Da Metáfora à Teoria (Metchnikoff and the Origins of Immunology – From Metaphor to Theory).Como eu não estava num estágio de imunologia e a área não me era familiar, estranhei um pouco o assunto do livro. Até começar a ler.O livro é uma análise minuciosa da carreira do biólogo russo Élie Metchnikoff, feita por Alfred Tauber e Leon Chernyak. Os autores mostram com maestria como a postura filosófica, ou modo de ver o mundo, de Metchnikoff afetaram diretamente suas interpretações e teorias biológicas. Isso me surpreendeu bastante já que pra mim a ciência era um bloco sólido e objetivo de fatos. E não apenas algo criado por meros “macacos“.Bom, mas quem foi Metchnikoff, afinal? E o que este biólogo russo que passou boa parte da sua vida estudando embriões de invertebrados marinhos tem a ver com imunologia?Nascido em 1845, Élie Metchnikoff, viveu uma agitada e controversa vida acadêmica, envolvendo-se em discussões com grandes nomes da época como Robert Koch e Ernst Haeckel.Logo após a publicação do “Origem das Espécies” de Charles Darwin, Metchnikoff iniciou seus estudos embriológicos descrevendo o desenvolvimento de diversos invertebrados.Quando Haeckel lançou sua versão da origem dos animais (gastraea) baseado no desenvolvimento dos anfioxos, Metchnikoff não tardou a apresentar sua versão para o ancestral hipotético do reino animal (parenchymella), baseado no desenvolvimento de esponjas e cnidários, organismos considerados mais basais.Foi nessa busca pelos mecanismos ancestrais do desenvolvimento que Metchnikoff começou a se perguntar como estas linhagens celulares podem formar um todo organizado (um organismo).A primeira grande sacada do russo foi perceber que a evolução de seres multicelulares deveria ser entendida por processos seletivos operando entre as linhagens celulares. Com isso viu que a existência de um animal depende, essencialmente, das interações celulares que ocorrem durante seu desenvolvimento. Compreender estas interações poderia revelar dicas de como foi a origem e evolução dos animais.Naquela época os organismos eram considerados intrinsicamente harmoniosos (equilibrados) e a doença seria causada pelo desequilíbrio entre os humores do corpo. A restauração da saúde dependeria da recuperação do balanço entre estas substâncias corpóreas, e o corpo seria passivo neste processo. Metchnikoff, que era um grande pessimista em relação à vida (incluindo algumas tentativas de suicídio no seu currículo), sugeriu algo diferente. Os organismos seriam intrinsicamente desarmoniosos, mas que estariam ativamente mantendo sua organização.Este salto metafísico veio da recorrente observação de determinado fenômeno ao longo de seus extensos estudos embriológicos: a fagocitose. Estas células amebóides parecem ter herdado a capacidade de englobar partículas presente nas amebas (protozoários). Num contexto multicelular estas células não somente alimentavam-se ao fagocitar, mas também forneciam alimento às outras células, como nas esponjas, animais com digestão intracelular. O ato de englobar partículas, além de bastante comum, parecia essencial nos processos do desenvolvimento dos organismos, como a regressão da cauda de girinos, estudado pelo russo.Sua obsessão pela fagocitose culminou num famoso experimento que edificou as bases de sua teoria, a Teoria Fagocítica. Enquanto observava as células de uma larva de estrela-do-mar Metchnikoff percebeu que estas células também poderiam estar ativamente protegendo o organismo através da fagocitose.Para testar tal idéia Metchnikoff pegou um acúleo de roseira e espetou na larva de estrela-do-mar.No dia seguinte encontrou o acúleo cercado de células amebóides, indicando uma resposta aquele estímulo estranho.A capacidade de “comer” e migrar dos fagócitos, que inicialmente permitiu a nutrição de outras células do organismo, assume um novo papel em animais com digestão extracelular. Estas células exercem agora um papel regulativo, mantendo a integridade do organismo através da fagocitose de invasores (e.g. bactérias) e limpeza de debris celulares. Este cenário é um prato cheio para biólogos interessados em evolução! Nesta altura da história eu já me encontrava imerso no maravilhoso mundo da fagocitose, a resposta para tudo… meus amigos que o digam 😉A universalidade da fagocitose no reino animal (com raríssimas exceções) deixou Metchnikoff sem dúvidas da importância deste fenômeno para a vida dos animais, sugerindo que estas células seriam as responsáveis pela criação e manutenção da identidade de um organismo. O reconhecimento de elementos estranhos ao organismo cabia aos fagócitos. Partindo de estudos descritivos de embriologia comparada, passando pela fisiologia das linhagens celulares e suas interações, e sempre tentando entender a origem dos animais num contexto evolutivo, este russo promoveu um salto conceitual no entendimento do que é um organismo. A noção que o organismo têm uma resposta ativa à invasores patogênicos é a base da imunologia até hoje.Depois de muitas controvérsias Élie Metchnikoff e Paul Ehrlich dividiram o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1908, pelas suas contribuições no estudo do sistema imune.Ler esta história foi fantástico pra mim e definitivamente moldou meus interesses na biologia. Não imagino o que teria feito se não tivesse conhecido Metchnikoff, haha. Também me tornei obsessivo. Lembro que qualquer pergunta biológica poderia ser respondida com apenas uma palavra: fagocitose. Foi uma experiência interessante, até que comecei a ter aulas de botânica, e de repente percebi… células vegetais tem parede, não saem migrando e fagocitando por aí…!!! :-O Foi um choque. E assim caminha a ciência.Ps: acreditando que a imunidade estava ligada à nutrição, Metchnikoff popularizou o consumo de iogurtes para combater os efeitos deletérios de bactérias tóxicas presentes na flora intestinal, e assim promover a longevidade. É por causa do Metchnikoff que comemos iogurte e tomamos yakult!Este tópico faz parte do Carnaval Científico, com o tema “Um cientista em minha vida”, promovido pelo Carlos e Atila. Leia outros no tópico agregador!

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