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Tornando-se um verme

O primeiro trabalho do meu doutorado foi publicado na revista EvoDevo no mês passado. Aqui vai um resumo da história.

Evolução e desenvolvimento da larva adelfofágica e intracapsular do nemertíneo Lineus ruber
Evolução e desenvolvimento da larva adelfofágica e intracapsular do nemertíneo Lineus ruber. Em outras palavras: como é o embrião de um verme que, diferente de seus ancestrais, cresce dentro de um cápsula protetora e devora os irmãos menores?

Estudamos os embriões de certos vermes marinhos que já comentei por aqui—os nemertíneos. Acompanhamos estes carismáticos predadores desde a fecundação dos ovos, até o pequeno embrião tornar-se um jovem e independente verme.

Indivíduo de verme nemertíneo adulto da espécie Lineus ruber.
Verme nemertíneo adulto da espécie Lineus ruber.

Muitos nemertíneos liberam seus ovos e espermatozóides na água do mar e estes são fecundados enquanto flutuam. Antes de se tornarem adultos, os embriões passam por um estágio intermediário muito especial chamado de larva. Nestes vermes, ela parece um chapéu de detetive e chama-se larva pilídio.

Pilidium larva
Larva pilídio com o jovem verme crescendo dentro, como se estivesse de carona. Imagem de Maslakova, S. A. The invention of the pilidium larva in an otherwise perfectly good spiralian phylum Nemertea. Integr. Comp. Biol. 50, 734–743 (2010). doi:10.1093/icb/icq096 url:http://icb.oxfordjournals.org/content/50/5/734

Esta larva é capaz de nadar e capturar microalgas usando as abas do “chapéu” para se alimentar. Após alguns dias, o corpo do futuro verme começa a se formar dentro da larva, até crescer por completo. Este jovem verme então devora o corpo da larva pilídio, num processo que chamamos de metamorfose “catastrófica” (sim, é o termo técnico). Ele afunda e ocupa seu novo habitat: o fundo do mar. A fantástica larva pilídio merece um post só pra ela, mas hoje a história é outra.

Nosso objeto de estudo é a espécie Lineus ruber. Esta linhagem não tem a larva pilídio nos dias de hoje, mas sabemos que ela já teve em algum momento da sua história evolutiva, provavelmente milhares (ou milhões) de anos atrás. Isto significa que de alguma maneira, os embriões de L. ruber mudaram durante a evolução. Nossa motivação é justamente entender como isso aconteceu.

Os adultos de L. ruber vivem à beira d’água, nas praias dos fiórdes noruegueses. Diferente de outros nemertíneos, eles não liberam seus ovos diretamente na água, mas se acasalam e depositam suas massas de ovos na praia.

Essas massas de ovos são recobertas por um grosso muco secretado pela fêmea durante a ovoposição. O muco protege os embriões do ressacamento quando a maré está baixa. Filmamos uma fêmea depositando seus ovos no laboratório:

Como vemos acima, os ovos estão dentro de uma cápsula. Cada cápsula contém cerca de 10 ovos. Cada massa de ovos pode conter centenas de cápsulas. No entanto, dos 10 ovos apenas 2 ou 3 foram fecundados e formam embriões. Todo o desenvolvimento ocorre dentro da cápsula, até virarem pequenos vermes. Abaixo temos a sequência completa, do ovo ao verme em 40 dias:

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As fotos mostram as massas de ovos intactas, mas para estudo foi preciso abrir cápsula por cápsula sem danificar os embriões. Durante o desenvolvimento, quem se alimenta mais, fica maior. Note a diferença de tamanho entre irmãos no canto inferior direito do quadro (J)

Nessa espécie, o embrião que cresce primeiro, se alimenta dos ovos não fecundados, ou eventualmente, devora os irmãos menores. O embrião que comer mais, também cresce mais rápido. Por isso, dentro da mesma cápsula encontramos irmãos de diferentes tamanhos. No centro do vídeo abaixo vemos uma cápsula com um embrião gordo e amarelo, que provavelmente comeu todos os ovos não-fecundados. Ao lado vemos seu irmão, muito menor e mais transparente, coitado.

Se não interferirmos nas massas de ovos, os jovens eclodem em cerca de 40 dias de crescimento, já com aparência adulta.

É muito mais fácil observar estes vermezinhos fora da massa de ovos. Eles saem com uma grande variedade de tamanhos e formatos, provavelmente devido ao que aconteceu dentro de cada cápsula com seus irmãos. No entanto, todos mostram um aspecto em comum—são extremamente simpáticos:

L. ruber realmente não tem a larva pilídio. O que aconteceu? Olhando bem de perto, identificamos uma fina camada de células que recobrem os embriões com cerca de 12 dias. Esta camada tem cílios permite que os embriões “nadem” dentro da cápsula, como faz o irmão menor em um dos vídeos acima. No entanto, esta camada de células é temporária e em poucos dias se desfaz sem deixar traços.

Larva Schmidt de Lineus ruber. As pontas de setas indicam a camada de células que seria vestígio da larva pilídio.
Larva Schmidt de L. ruber em corpo inteiro (esquerda) e em detalhe (direita). As pontas de setas indicam a camada de células recobrindo o embrião que seria vestígio da larva pilídio. Núcleos das células em amarelo, membranas celulares em branco.

Este estágio peculiar de L. ruber foi descoberto por G. A. Schmidt em 1964 e ficou conhecida como larva de Schmidt. Uma das hipóteses é que a fina camada de células seja um vestígio da larva pilídio que esta espécie teve um dia. Por quê?

As larvas pílidio são cobertas por células ciliadas, muito importantes para nadar e se alimentar. Mas a partir do momento que os embriões passaram a crescer dentro de cápsulas, nadar e capturar algas deixou de ser importante. Assim, esta camada de células ciliadas acabou reduzida e praticamente perdida nesta espécie.

Mas o que levou esta espécie a criar seus embriões dentro de massas de ovos? Não sabemos, mas pode ter sido consequência de uma mudança de habitat dos adultos para regiões entremarés (onde fica seco durante a maré baixa). Dentro de massas de ovos, os embriões podem resistir melhor ao dessecamento e esta estratégia evolutiva acabou sendo selecionada.

As idéias são especulação, mas é interessante pensar em como uma mudança na ecologia de uma espécie pode afetar a forma de seus embriões.

Ilustração da larva de Schmidt por
Ilustração da larva de Schmidt mostrando a camada de células larvais envolvendo o embrião. Retirado de Schmidt, G. A. Ein zweiter Entwicklungstypus von Lineus gesserensis-ruber OF Müll. (Nemertini). Zool. Jahrb. Abt. Anat. Ontog. Tiere 58, 607–660 (1964).

Por fim, também analisamos onde e quando certos genes são ativados nos embriões de L. ruber. Vimos que quase nenhum dos genes de desenvolvimento embrionário mais conhecidos estão ativos nos tecidos da larva de Schmidt. Genes importantes, como os que definem onde se formará a cabeça, estão presentes apenas nos tecidos do pequeno jovem verme. Algo the também acontece com a larva pilídio. Isto sugere que genes completamente diferentes devem regular o crescimento destas larvas :-O

Entender como um ovo (uma única célula!) se torna um adulto e como este processo foi alterado durante a evolução é fascinante. Para tal, é importante pesquisar animais menos conhecidos. Isso coloca nosso conhecimento em perspectiva, já que a maioria dos estudos é feita em meia dúzia de organismos de laboratório, como ratos ou moscas.

Além disso, veja bem, vermes marinhos são, muitas vezes, mais cativantes que pandas ou golfinhos. Por exemplo, os nemertíneos são hábeis caçadores. Eles têm um órgão eversível na forma de tromba que é repleto de substâncias tóxicas. O ataque é rápido e debilita as presas, que acabam engolidas vivas ou mortas. A velocidade e precisão são impressionantes e até já viralizaram na internet.

Aproveitamos o estudo para filmar a primeira vez que estes vermes bebês usaram sua probóscide mortal. No caso, treinando as habilidades de caça com os ovos de um outro verme. No vídeo abaixo vemos a graciosidade que estes pequenos têm para manejar os ovos até a boca e engolir um após o outro:

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Reprodução de um nemertíneo

Pelo terceiro ano consecutivo os nemertíneos do laboratório começam a botar seus embriões no primeiro dia de abril! Regularidade de reprodução que impressiona.

Reprodução do verme nemertíneo Lineus ruber
Este verme nemertíneo é vermelho escuro, boa parte do seu corpo está coberto pelo casulo (massa semitransparente) contendo embriões (fileiras de esferas amarelo-claro). A cabeça está no centro superior e é a parte sem casulo ou ovos.

Mas fabulosa mesmo é a maneira que esse verme deposita sua massa de embriões. Num artigo sobre o ciclo de vida de uma espécie próxima (acesso restrito) os autores disponibilizaram um vídeo do processo de acasalamento e deposição do casulo (acesso aberto, mas cuidado: arquivos .wmv).

A fêmea secreta uma camada grossa de muco gelatinoso pelo corpo onde diversos machos se enrolam e aproveitam para liberar seus espermatozóides. Depois que os machos saem, a fêmea secreta outra camada de muco e começa a liberar os óvulos recém-fertilizados através de inúmeros ovários presentes nas laterais do corpo.

Os embriões permanecem nessas camadas gelatinosas enquanto a fêmea se esguia para fora do casulo. Este fica, por sua vez, aderido ao substrato e serve como proteção para os embriões em desenvolvimento. Leva cerca de 20 dias para saírem pequenos verminhos do casulo.

Viu o vídeo, já?

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Buscar artigos da PLOS pelo DuckDuckGo

Ano passado resolvi experimentar a DuckDuckHack, plataforma de desenvolvimento para o buscador DuckDuckGo. A idéia era usar as respostas instantâneas, característica do pato, para encontrar artigos científicos; ou seja, um Google Scholar alternativo.

Apesar de parecer possível, resolvi tentar algo mais simples. Um plugin que usa o API da PLOS para buscar artigos (como esse) e mostrá-los na caixa de resposta instantânea.

Pra buscar basta colocar a palavra “plos” + termo de busca (exemplo acima). O resultado é uma lista com o título e data dos 5 artigos mais relevantes e link direto para o texto. O mouse over mostra os autores e qual revista da PLOS. Este formato foi simplificado ao longo do pull request inicial e finalizado no segundo.

Resposta instantânea para artigos da PLOS no DuckDuckGo.

O código no final é bem simples, uma função em Perl que conecta o API ao Duck e uma função em javascript que lida com a resposta da busca. E a comunidade do pato é bem amigável pra ajudar com qualquer dificuldade no código.

O fato de ser um plugin de um buscador menos usado que o Google restringe um pouco o número de usuários. Talvez eu seja o único e posso contar nos dedos quantas vezes eu usei. Muito mais útil seria se ele buscasse toda literatura científica! Mas enfim,  gosto dele. Acho que é a emoção de conectar serviços usando APIs.

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Relembrando o inverno passado

O plano era ir num congresso no Texas em janeiro, coletar braquiópodes em Washington e por fim visitar um laboratório em Rhode Island. Fui até Oslo para a entrevista do visto e começou a confusão. Tinha pedido um visto de congresso, mas pediram para trocar por um de estudante (por causa da visita para Rhode Island). Aí começou o drama de enviar documentos entre continentes com o complicador que dezembro é um mês pela metade. Em resumo, mandei meu passaporte pra embaixada na semana antes do natal e meu vôo era dia 03 de janeiro. Minha apresentação no congresso era dia 05.

Fui para Tromsø e depois Amsterdã com o pessoal da bio (mais sobre isso em outro post) sem meu passaporte. No dia 2 avisaram que o passaporte estava pronto em Oslo. Tive que mudar meu vôo pro dia 4 e o jeito mais barato era fazer upgrade pra classe executiva. Arranjei também uma entrega no mesmo dia de OSL pra AMS! Recebi o passaporte no dia 3 de noite e fui pegar o avião no dia seguinte de manhã. Chego no aeroporto e… vôo cancelado! Por causa da nevasca em Nova Iorque.

Estava na fila gigantesca com os outros passageiros e passou a moça chamando quem era da “bussiness”. Eu já tinha esquecido que eu era! Já tinham me colocado em outro vôo pra NY, mas chegando em outro aeroporto. De qualquer modo consegui chegar onde iria pegar o vôo pro Texas. O aeroporto estava um caos, mas meu vôo saiu, atrasado mas saiu. Cheguei lá e minha mala não chegou, tinha ficado em Nova Iorque.

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Base da minha alimentação nos EUA.

Fui direto para o hotel e no dia seguinte foi minha palestra que correu bem. Na noite sequinte consegui errar a cama e caí com meu joelho na barra de metal da cama. Achei que tinha rachado a rotula, com certeza. Minha mala ainda não tinha chegado e tive que começar a comprar roupas pra sobreviver ainda manco. Minha mala chegou no Texas dia 07 só no vôo das 18:30. E eu fui embora do Texas para Washington no mesmo dia, só que no vôo das 17:30… Aproveitei para fazer mais compras em Seattle, comprei uma mala até.

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Um tanque cheio de braquiópodes.

Fomos pra Friday Harbor coletar e foi bem produtivo, apesar do meu experimento não ter funcionado como o planejado.

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Cerveja do Alasca e figuras de bexiga.

Com o fim da coleta fui para o próximo destino, o menor estado dos EUA. Pegamos um vôo pra Nova Iorque e chegamos 2h antes de outra tempestade de neve. Mas tudo deu certo e consegui pegar o trem para Providence.

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Primeira noite em Providence, RI.

Fiquei por lá por quase um mês mexendo com dados de expressão gênica do verme pênis e também foi muito proveitoso.

Depois fui pra Nova Iorque, visitei a Paola no Brooklin e ainda fomos ver um jogo da NBA.

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No badalado Brooklyn com a Peulla.
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NYC.
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Assistindo jogo com a Paola!

Por fim, tive que ir até Amsterdã para pegar o vôo pro Brasil, mas não foi tão mal assim. E no Brasil foi muito bom rever todo mundo!

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Comida no Brasil!
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Verme amendoim

Sipuncúlidos são vermes marinhos não-segmentados que tem a larva mais carismática dos oceanos, a pelagosfera:

Larva pelagosfera
Alvaro E. Migotto. Larva pelagosfera. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: http://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/11960/ Acesso em: 2013-04-28.

As pelagosferas são bastante ativas e podem nadar por meses até assentar e se tornarem indivíduos adultos.

Os adultos são mais… vermiformes. Vivem no lodo, areia ou conchas, tem uma probóscide retrátil denominada de introverte (veja este vídeo) com tentáculos em volta da boca e seu ânus fica no meio das “costas” (superfície dorsal).

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Alvaro E. Migotto. Sipuncúlido. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: http://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/11687/ Acesso em: 2013-04-28.

Alguns são bonitos e até coloridos. E tem gente que come, claro! Descobri na Wikipedia que geléia de sipuncúlido é uma delicatessen de uma cidade na China. Nham!

Sipunculid worm jelly
A dish of Sipunculid worm jelly made with Sipunculus nudus 中文(繁體)‎: 土筍凍 Photo: SoHome Jacaranda Lilau

Enfim, queria mesmo era compartilhar o teste abaixo traduzido de um famoso livro texto de invertebrados. Com as figuras e links neste post fica fácil responder 😉

Sipuncula

Saiba mais sobre os sipuncúlidos no EoL.

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Cifonauta, um banco de imagens para a biologia marinha

O Cifonauta foi inaugurado no dia 26 de setembro do ano passado (2011) e completa hoje 1 ano de vida pública. A ideia de um banco de imagens da vida marinha, no entanto, é mais antiga.

Primórdios da galeria de fotos sobre biologia marinha.

A documentação fotográfica faz parte de muitas abordagens de pesquisa e nos 30 anos de CEBIMar muito material foi coletado e estudado. Revistas especializadas e atividades de extensão do centro como cursos, folhetos e palestras são o destino comum deste conteúdo. No entanto, apenas uma pequena parte é publicada desta maneira, o restante acabava nunca vindo a público. São fotos e vídeos acumulados ao longo dos anos e que de certo modo representam a diversidade da vida marinha do litoral norte de São Paulo. Como aproveitar este potencial?

A ideia do Alvaro era criar um banco de imagens para divulgar os organismos documentados no CEBIMar. A primeira versão do site do CEBIMar, por exemplo, já continha uma galeria curada à mão contendo fotos de organismos marinhos separadas por classificação taxonômica.

galeria2008

A segunda versão do site também continha uma galeria ainda maior com cerca de 1000 fotos. Ainda assim, era pouco para o volume de material nos arquivos do CEBIMar. A oportunidade surgiu com um edital do CNPq e assim criamos o Cifonauta.

A ideia é simples. Um banco de imagens sobre biologia marinha abastecido pelos próprios pesquisadores do CEBIMar. Especialistas cujo conhecimento permite enriquecer as imagens com informações adicionais. No caso, nome da espécie, classificação taxonômica, habitat, estágio de vida, modo de vida, tamanho, geolocalização, técnica utilizada, etc. Estes dados permitem não só saber um pouco mais sobre o organismo, mas também filtrar o conteúdo do banco combinando marcadores.

Filtrando conteúdo através de marcadores no Cifonauta.

Outro diferencial do Cifonauta é que não colocamos apenas a melhor foto de cada ser. Uma foto é um recorte espacial e temporal e um organismo é um ser complexo tridimensional. Por isso, colocamos diversas imagens representativas de um mesmo organismo como no Chromodoris paulomarcioi. Todo o material sobre o vida de bolacha também está disponível na página da Clypeaster subdepressus.

Outro exemplo recente da utilidade do banco veio da iniciativa de pesquisadores da meiofauna do CEBIMar (organismos que vivem entre grãos de areia). Eles produziram um filme fantástico chamado Vida Entre Grãos e adicionaram todas as fotos e vídeos utilizados ao Cifonauta. São 538 fotos e 167 vídeos documentando a biologia destes organismos. Tardígrados, ácaros, nemertíneos, poliquetos, quinorrincos, gastrótricos, moluscos – entre outros! Não é qualquer pessoa que já viu um gastrótrico andando por aí… mas agora qualquer pessoa pode. E é esse o ideal do Cifonauta.

O Vida Entre Grãos para quem não viu:

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6 meses

Hoje completam seis meses que cheguei aqui. Passou rápido, mas também foram bem intensos. Estou gostando bastante do laboratório, era exatamente o que queria: embriões, larvas e evolução de invertebrados marinhos. Meu projeto é estudar alguns processos do desenvolvimento em larvas marinhas diferentes e compará-los. Além de estudar as formas, que foi o que fiz com as bolachas, estou olhando a expressão de genes. Aprendi o básico do molecular e confesso que estou gostando, mas ainda falta ficar “fluente” em várias coisas.

É tudo muito engenhoso… primeiro eu preciso descobrir os genes que um organismo tem. Pra isso coletamos amostras de tecido ou embriões/larvas, extraímos o DNA/RNA e enviamos este material bruto para ser sequenciado, ou seja, uma máquina vai ler a informação, organizar e passar para o computador. Com estas sequências posso checar se o organismo tem determinado gene; faço isso comparando com genes já descritos de outras espécies. Bam, encontrei o gene que queria. Mas meu objetivo é descobrir onde este gene está ativo nos embriões, é no olho, na boca, no ânus, na barriga? Para isso eu primeiro preciso de uma boa quantidade de cópias do gene para conseguir trabalhar. Começo construindo duas curtas sequências que são complementares com a sequência do gene. Coloco o DNA, as sequências e uma enzima num tubinho numa máquina. Essas sequências vão grudar uma em cada canto do gene e tudo que estiver entre elas vai ser replicado. Isso acontece exponencialmente e em menos de 3h eu tenho zilhões de cópias do meu gene no tubinho.

Essas cópias degradam com o tempo, por isso faço uma reação que vai inserir cada cópia em um DNA circular, que é muito mais estável. Mas ainda não sei se o que inseri no DNA circular é a cópia do meu gene original. Por isso, misturo este DNA com bactérias e dou um choque térmico nelas, que no susto incorporam o DNA circular. Deixo as bactérias crescendo e vejo as bactérias que consequiram incorporar o DNA circular; pego essas e deixo elas se multiplicarem a vontade, pois assim estarão fazendo mais cópias. Por fim, explodo as bactérias para deixar apenas o DNA circular, faço mais um round de replicação e mando essas amostras para sequenciar para saber se as cópias que tenho são mesmo do meu gene ou se alguma outra coisa foi replicada por engano.

Chega a hora de usar o gene que “clonei” acima para criar uma sonda. Basicamente é pegar a sequência e criar uma sequencia complementar que ao entrar em contato com o embrião, vai grudar onde o gene original estiver ativo. Só é preciso grudar um anticorpo na sonda para que consigamos ver aonde foi que a hibridização ocorreu. E com isso sabemos onde os genes estão sendo expressos e podemos inferir o papel deles na formação das estruturas dos embriões. No geral isso demora umas 2 semanas, só que pode não dar certo… Estou começando a ter alguns resultados (o que dá um ânimo extra), mas algumas coisas ainda não estão funcionando (e ainda não sei pq). Mas também é meio inevitável quando você trabalha com organismos que pouca gente estuda.

Com isso vocês podem ter uma idéia melhor do que é o trabalho, apesar de que só expliquei as moléculas… Acho que 6 meses não cabem num post só, vou tentar escrever o próximo logo.

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Gene Fetcher tool no Zim Desktop Wiki

Tenho usado o Zim Desktop Wiki como caderno de anotações faz algum tempo. Ele salva as notas como arquivo texto com marcação wiki permitindo que eu acesse o conteúdo diretamente com outros editores e facilitando o backup (eg, pasta de notas sincronizada no Dropbox).

Comecei a mexer com genes no doutorado e estava guardando as sequências em arquivos texto soltos por aí. Pra manter as coisas organizadas (já que a quantidade de genes começou a aumentar) resolvi tentar guardar cada sequência em uma nota separada no Zim. Assim posso organizar os genes de maneira mais intuitiva, fica mais fácil encontrar o que estou procurando e ainda posso acessar as sequências programaticamente com scripts.

Cada gene pode ter marcadores indicando que aquela página é uma sequência, o organismo, o tipo de gene (relacionado com que processos do desenvolvimento) e o nome mais comum para agrupar genes ortólogos. Com os marcadores fica fácil filtrar as notas. Na imagem abaixo eu cliquei no gene vasa e de cara dá pra ver que tenho as sequências do peixe paulistinha (D. rerio), humanos (H. sapiens) e drosófila (D. melanogaster).

Example of gene sequence in Zim Desktop Wiki importado com o Gene Fetcher.
Example of gene sequence in Zim

O link para a sequência no NCBI também é útil, caso precise voltar lá para checar alguma informação. Por fim tenho a sequência no formato FASTA, que é o que vou usar na maioria dos casos. Criar uma página assim consome alguns comandos, copy/paste e cliques, então fiz um script simples para automatizar isso.

No Zim você pode rodar scripts customizados que interagem com as páginas do caderno de notas. Criei o Gene Fetcher para gerar a página a partir do identificador da sequência. Basta você colar o identificador numa nova página, selecioná-lo com o cursor e rodar. As informações serão adicionadas ao final da página.

Nada muito revolucionário, mas útil. Pelo menos pra mim, por enquanto. Também pode ser usado fora do Zim, é só passar os argumentos certos.

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Curta da semana

Depois de passar por um período de engorda na estação marinha acabamos voltando 1 semana antes, pois os bichos não estavam grávidos e o microscópio quebrado. Chegamos no aeroporto de manhã (2 horas de ônibus até Gotemburgo), fizemos o checkin, passamos pela segurança, compramos o limite de álcool no duty free e ao chegar no portão vimos que nosso vôo tinha sido cancelado… Estavamos com amostras à -20 °C e animais vivos na mala. O vôo era direto, 1h até Bergen; nosso caminho acabou sendo: Gotemburgo > 30min > Copenhagen > 65min > Oslo > 40min > Bergen. Mas tudo chegou bem.

Hoje estava voltando pra casa quando uma dupla de garotas norueguesas me aborda. Achei que iam pedir alguma informação, maaas… “olá, blabla, queríamos saber se conhece o livro blabla?” (…) “somos mórmons” haha. Disse que elas tinham parado a pessoa errada, mas ela insistiu que eu era a pessoa certa. Eu disse que “seguia” outro livro, ela retrucou perguntando se não achava que deus e evolução podem estar juntos… (hmmm). Perguntou se eu já tinha visto alguma prova da evolução. Perguntou se já tinha visto por mim mesmo alguma evidência da evolução… Explicaram como o mundo criado por deus era maravilhoso, mas concordaram que as moscas não vão para o céu quando morrem pois não possuem “espírito”. Discutimos sobre o que é uma teoria científica e que nem a gravidade (nem a evolução) são uma “teoria” no sentido leigo; sobre como a ciência não prova nada e funciona com dados e evidências mensuráveis e reproduzíveis; sobre evidências da evolução (aproveitei pra falar sobre meu projeto). Entre outras coisas mais como garantir a vida eterna. A igreja tem até filial no brasil, ela me disse o nome em português pra ver se eu conhecia.

Claro que não foi assim pá-pum e as vezes é difícil pensar na melhor resposta (foi o que fiquei pensando no resto do caminho). Ela me ofereceu o “livro” de grátis além de um panfleto do site mórmon. Agradeci e recusei polidamente. Ela me acusou de contradição, se eu era a favor de entender o mundo a partir de evidências porque não queria aceitar essa fonte de informações mórmon, estava ignorando dados… Tive que concordar e assumi ignorar algumas coisas da realidade 😛 Pelo menos elas tiveram menos tempo para converter outras pessoas nessa noite.

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Tartarugas, embriões e fósseis

Escrevi um texto sobre o desenvolvimento e evolução do casco das tartarugas no The Node: Turtles in a nutshell.

Tartarugas
Tartaruga no Henry Doorly Zoo, Omaha. Foto por Algy3289.

Ele mostra como é o início da formação do casco nos embriões e como isso pode ajudar a entender a evolução desse padrão corpóreo tão diferente. Animações em 3D e fósseis estão inclusos no pacote!

Nunca imaginei que colocaria um vertebrado neste site… mas o fato delas terem seus ombros dentro da caixa torácica me fez abrir uma exceção, coitadas.