A Sombra do Vento

― Seu amigo Tomás tem talento, mas falta-lhe um rumo na vida, e um pouco de ambição, que é o que decide as coisas ― opinava Fermín Romero de Torres. ― A mente científica tem dessas coisas. Veja, por exemplo, o senhor Albert Einstein. Inventou tantos prodígios, e o primeiro para o qual encontraram aplicação prática foi a bomba atômica, e ainda por cima sem a sua permissão. Além disso, com essa aparência de boxeador que Tomás tem, vão lhe dificultar as coisas no meio acadêmico, porque nesta vida o que comanda tudo é o preconceito.

Motivado a salvar Tomás de uma vida de penúrias e incompreensões, Fermín tinha decidido que era preciso fazê-lo exercitar sua oratória latente e a sua sociabilidade.― O homem, como bom símio, é um animal social e nele prevalecem as patotas, o nepotismo, as trapaças e os rumores como pauta intrínseca de conduta ética ― argumentava. ― É biologia pura.

― Não por muito tempo.

― Que sonso você é às vezes, Daniel.

Livro: A Sombra do Vento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Páginas: 80-81

Rosebud (o verbo e a verba)

Baniram o gerúndio, serão lágrimas de hipocrisia?

Dolores, dolores, dólares…

O verbo saiu com os amigos
pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
o verbo afagou sua mágoa, e dormiu.

Dolores, dólares…

O verbo gastou saliva,
de tanto falar pro nada.
A verba era fria e calada,
mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
e depois quando a verba chegou,
era tarde demais
o cádaver jazia,
a verba caiu aos seus pés a chorar
lágrimas de hipocrisia.

dolores, dólares… (rosebud)
dolores e dólares… dólares! (rosebud)
dolores e dólares… (rosebud)
que dolor que me da los dólares
dólares, dólares
ai que dolor, que dolor que me da los dólares

Lula Queiroga (música: Lenine)

O que é bonito?

O que é bonito
É o que persegue o infinito
Mas eu não sou
Eu não sou, não…
Eu gosto é do inacabado
O imperfeito, o estragado que dançou
O que dançou…
Eu quero mais erosão
Menos granito
Namorar o zero e o não
Escrever tudo o que desprezo
E desprezar tudo o que acredito
Eu não quero a gravação, não
Eu quero o grito
Que a gente vai, a gente vai
E fica a obra
Mas eu persigo o que falta
Não o que sobra
Eu quero tudo
Que dá e passa
Quero tudo que se despe
Se despede e despedaça
O que é bonito…

Lenine e Bráulio Tavares

O último dos porteiros

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas agora não”. Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro”. O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado para a viagem com muitas coisas, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: “Eu só aceito para você não achar qie deixou de fazer alguma coisa”. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente a sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. “O que é que você ainda quer saber?”, pergunta o porteiro. “Você é insaciável.” “Todos aspiram à lei”, diz o homem. “Como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.

Livro: O Processo
Autor: Franz Kafka
Páginas: 214-215