Arquivo para a categoria 'biologia'

18
Jun

Élie Metchnikoff

Um cientista em minha vida

Em 2002, enquanto cursava o segundo ano de biologia, comecei a ler um livro recomendado pelo chefe do laboratório onde eu fazia estágio. Organizamos um grupo de discussão e ao longo de vários meses nos reunimos semanalmente para discutí-lo com um colaborador da filosofia. O livro chama-se Metchnikoff e as Origens da Imunologia - Da Metáfora à Teoria (Metchnikoff and the Origins of Immunology - From Metaphor to Theory) [googlebooks, amazon].

Como eu não estava num estágio de imunologia e a área não me era familiar, estranhei um pouco o assunto do livro. Até começar a ler.

O livro é uma análise minuciosa da carreira do biólogo russo Élie Metchnikoff, feita por Alfred Tauber e Leon Chernyak. Os autores mostram com maestria como a postura filosófica, ou modo de ver o mundo, de Metchnikoff afetaram diretamente suas interpretações e teorias biológicas. Isso me surpreendeu bastante já que pra mim a ciência era um bloco sólido e objetivo de fatos. E não apenas algo criado por meros “macacos“.

Élie MetchnikoffBom, mas quem foi Metchnikoff, afinal? E o que este biólogo russo que passou boa parte da sua vida estudando embriões de invertebrados marinhos tem a ver com imunologia?

Nascido em 1845, Élie Metchnikoff, viveu uma agitada e controversa vida acadêmica, envolvendo-se em discussões com grandes nomes da época como Robert Koch e Ernst Haeckel. Logo após a publicação do “Origem das Espécies” de Charles Darwin, Metchnikoff iniciou seus estudos embriológicos descrevendo o desenvolvimento de diversos invertebrados.

Quando Haeckel lançou sua versão da origem dos animais (gastraea) baseado no desenvolvimento dos anfioxos, Metchnikoff não tardou a apresentar sua versão para o ancestral hipotético do reino animal (parenchymella), baseado no desenvolvimento de esponjas e cnidários, organismos considerados mais basais.

Foi nessa busca pelos mecanismos ancestrais do desenvolvimento que Metchnikoff começou a se perguntar como estas linhagens celulares podem formar um todo organizado (um organismo).

A primeira grande sacada do russo foi perceber que a evolução de seres multicelulares deveria ser entendida por processos seletivos operando entre as linhagens celulares. Com isso viu que a existência de um animal depende, essencialmente, das interações celulares que ocorrem durante seu desenvolvimento. Compreender estas interações poderia revelar dicas de como foi a origem e evolução dos animais.

Naquela época os organismos eram considerados intrinsicamente harmoniosos (equilibrados) e a doença seria causada pelo desequilíbrio entre os humores do corpo. A restauração da saúde dependeria da recuperação do balanço entre estas substâncias corpóreas, e o corpo seria passivo neste processo. Metchnikoff, que era um grande pessimista em relação à vida (incluindo algumas tentativas de suicídio no seu currículo), sugeriu algo diferente. Os organismos seriam intrinsicamente desarmoniosos, mas que estariam ativamente mantendo sua organização.

Este salto metafísico veio da recorrente observação de determinado fenômeno ao longo de seus extensos estudos embriológicos: a fagocitose. Estas células amebóides parecem ter herdado a capacidade de englobar partículas presente nas amebas (protozoários). Num contexto multicelular estas células não somente alimentavam-se ao fagocitar, mas também forneciam alimento às outras células, como nas esponjas, animais com digestão intracelular. O ato de englobar partículas, além de bastante comum, parecia essencial nos processos do desenvolvimento dos organismos, como a regressão da cauda de girinos, estudado pelo russo.

Larva brachiolaria de estrela-do-marSua obsessão pela fagocitose culminou num famoso experimento que edificou as bases de sua teoria, a Teoria Fagocítica. Enquanto observava as células de uma larva de estrela-do-mar Metchnikoff percebeu que estas células também poderiam estar ativamente protegendo o organismo através da fagocitose. Para testar tal idéia Metchnikoff pegou um acúleo de roseira e espetou na larva de estrela-do-mar. No dia seguinte encontrou o acúleo cercado de células amebóides, indicando uma resposta aquele estímulo estranho.

A capacidade de “comer” e migrar dos fagócitos, que inicialmente permitiu a nutrição de outras células do organismo, assume um novo papel em animais com digestão extracelular. Estas células exercem agora um papel regulativo, mantendo a integridade do organismo através da fagocitose de invasores (e.g. bactérias) e limpeza de debris celulares. Este cenário é um prato cheio para biólogos interessados em evolução! Nesta altura da história eu já me encontrava imerso no maravilhoso mundo da fagocitose, a resposta para tudo… meus amigos que o digam ;-).

A universalidade da fagocitose no reino animal (com raríssimas exceções) deixou Metchnikoff sem dúvidas da importância deste fenômeno para a vida dos animais, sugerindo que estas células seriam as responsáveis pela criação e manutenção da identidade de um organismo. O reconhecimento de elementos estranhos ao organismo cabia aos fagócitos. Partindo de estudos descritivos de embriologia comparada, passando pela fisiologia das linhagens celulares e suas interações, e sempre tentando entender a origem dos animais num contexto evolutivo, este russo promoveu um salto conceitual no entendimento do que é um organismo. A noção que o organismo têm uma resposta ativa à invasores patogênicos é a base da imunologia até hoje.

Depois de muitas controvérsias Élie Metchnikoff e Paul Ehrlich dividiram o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1908, pelas suas contribuições no estudo do sistema imune.

Ler esta história foi fantástico pra mim e definitivamente moldou meus interesses na biologia. Não imagino o que teria feito se não tivesse conhecido Metchnikoff, haha. Também me tornei obsessivo. Lembro que qualquer pergunta biológica poderia ser respondida com apenas uma palavra: fagocitose. Foi uma experiência interessante, até que comecei a ter aulas de botânica, e de repente percebi… células vegetais tem parede, não saem migrando e fagocitando por aí…!!! :-O Foi um choque. E assim caminha a ciência.

ps: acreditando que a imunidade estava ligada à nutrição, Metchnikoff popularizou o consumo de iogurtes para combater os efeitos deletérios de bactérias tóxicas presentes na flora intestinal, e assim promover a longevidade. É por causa do Metchnikoff que comemos iogurte e tomamos yakult!

Este tópico faz parte do Carnaval Científico, com o tema “Um cientista em minha vida”, promovido pelo Carlos e Atila. Leia outros no tópico agregador!
04
Mar

Faculty of 1000

Acabei de descobrir esse site!

www.facultyof1000.com

Nele aproximadamente 5000 cientistas “top do mundo” recomendam artigos científicos importantes, interessantes, controversos, etc… Em menos de 5 minutos mexendo eu encontri coisas bem legais! Ele tem uma seção de Biologia e outra de Medicina, obviamente olhei os artigos de biologia, especialmente de biologia do desenvolvimento.

Ainda tem coisitas legais como listar os “top 10″, os mais acessados, e as “pérolas escondidas”… Mais uma prova que a internet pode ajudar a ciência muito além do nosso velho conhecido email. Seria legal se usuários comuns pudessem deixar sua opinião sobre os artigos…

Putz, acabei de ver que para acessar talvez precise de assinatura da universidade… :-( Quando voltar pra casa faço o teste.

[edit] Continuo sem saber, consegui acessar de fora da rede da USP (colocando o login e tal…), mas ainda estou em dúvida. Tinha algo de 7 dias grátis… e ainda fazem 6 dias que me cadastrei… [/edit]

19
Jan

Deselegância Algorítmica

vida escondida

Na última SEED Magazine saíram algumas fotos da exposição “Oceano: vida escondida” e foi lá que li pela primeira vez um artigo bacaninha do PZ Myers, autor do blog de ciência mais famoso (e ativo) do universo, o Pharyngula.

PZ Myers - SEED

O artigo designado de Algorithmic Inelegance (que traduzi livremente para Deselegância Algorítmica) faz uma rápida e objetiva comparação entre o código genético e o código-fonte de programas de computador. O artigo foi disponibilizado no site da revista! Aproveite para ler lá.

01
Out

Nos bastidores do Oceano

A exposição Oceano: vida escondida está se aproximando do milésimo visitante! No primeiro fim de semana tivemos cerca de 350 visitantes e neste último atingimos 436 nomes no livro de visita (e vááárias pessoas saíram sem assinar!). O site passou dos 2000 visitantes desde sua inauguração!

Para quem não viu ainda não deixe de visitar! Acabei de criar este slideshow com as fotos, para quem não viu ainda! Para quem quiser divulgar é só clicar no “on SlideShare” e copiar e colar o código.

Aproveito também para divulgar algumas fotos dos bastidores da exposição. Sempre dá muito mais trabalho do que parece…

vida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondidavida escondida

A exposição vai até 19 de outubro, depois disso ela irá outros locais! Aguarde novidades.

19
Set

OCEANO: vida escondida

Acabou de entrar no ar o site da exposição OCEANO: vida escondida!!!

Crustaceo

É uma exposição com fotos de vários organismos marinhos com o intuito de divulgar a beleza destes seres, que na maioria das vezes passa despercebida… só os biólogos marinhos acabam vendo essas raridades!

São fotos bem bacanas como essas!

Ouriço

Como eu também participei da organização e com fotos, vou tentar colocar algumas informações extras sobre estes organismos!

O endereço do site para mais informações (e muito mais fotos!) é:

www.usp.br/cbm/oceano

Depois coloco as aventuras para desenvolver o site…!

ps: veja mais informações nos desertores.




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